AVERTÊNCIA
Este texto contém spoilers e diz respeito unicamente a minha opinião sem considerar nada além do que eu penso. Não tenho a mínima intenção de ser respeitoso com qualquer ponto de vista ou mesmo criticar de forma rica e culta, mas sim em apenas dar minha opinião sobre algo. Ok?
Então, fui ver este último filme do Almodóvar:
A pele que habito.
Fui por recomendação de alguns podcasters que, entusiasmados, recomendaram o filme como sendo “menos almodóvar que os outros filmes do Almodóvar” e com um plot-twist como há muito tempo não se via no cinema. Ambos os comentários soaram como positivos pra mim, pois menos almodóvar é bom e, se tem plot-twist surpreendente, melhor ainda.
PAUSA
Não acho que um filme tenha que ter plot-twist pra ser bom. Eu só curto plot-twists e ainda quero ter minha cabeça explodida por uma virada/revelação como em Sexto Sentido, quando se descobre que o personagem de Bruce Willis esteve morto todo o tempo, etc…
DESPAUSA
Então fomos lá, a Dafne e eu, até o Unibanco Arteplex do Bourbon.
O filme começa interessante… Antônio Banderas, apesar de na capa da gaita, está muito bem, assim como logo de cara já se vê um pouco de nudez feminina. Como o nome do filme diz, o filme parece ser sobre um médico (Banderas) que tem uma paciente cuja pele ele está trocando. O curioso é que a paciente parece estar presa no lugar, guardada por uma velha que mais tarde se descobre ser mãe do Antônio Banderas, mesmo que isso não faça A MÍNIMA DIFERENÇA PRA QUALQUER OUTRA COISA NO FILME além da revelação que a velha faz.
Nem o Antônio Banderas fica sabendo disso.
A velha até comenta antes “ah se eu tivesse te parido…” ou algo parecido, pra dar a pista óbvia sobre fato tão indiferente.
Essa velha fala um monte. Ela conta tudo sobre a família, sobre o médico e dá a entender que detesta essa paciente que está na casa. Inclusive, por algum motivo, a velha fica insinuando ao Antonio Banderas que “se livre” da paciente misteriosa enclausurada!
O médico é meio loucão. Aliás, como em todo filme do Almodóvar, todo mundo é meio loucão.
O cara apresenta seus exitosos experimentos com pele em um congresso e a gurizada, apesar de impressionada, suspeita um pouco de seus procedimentos e o proíbe de seguir com as experiências. Beleza.
Aí começam as obviedades de estilo de direção/edição que fazem com que eu fique pensando que Almodóvar já está muito velho pro cinema. O cara faz cortes temporais (mostrando situações no passado) que não são NADA sutis, são óbvios e com letras garrafais dizendo “SEIS ANOS ANTES…”, faltando apenas um narrador pra ler o que está escrito na tela.
Já sabemos que a família do médico é cheia de tragédias, onde a mulher do cara traía ele com o filho bandido da mordoma (a velha que era mãe dos dois, mas isso não faz diferença).
Amante bandido e piranha sofrem um “acidente” de carro e a mulher pega fogo. Antônio Banderas consegue salvar a esposa carbonizada e a fica tentando reconstituir sua pele, até que um dia a mulher se vê refletida numa janela e, pela imagem horrenda que vê de si mesma, se joga do quarto andar e morre na frente da filhinha, que fica com a mente desgraçada.
Tudo isso já tinha sido contado pela velha antes em algum diálogo.
Então aparece esse cara com sotaque português com uma fantasia de tigre.
É o filho “bastardo” da velha, óbvio. Ele entra, quebra tudo, amarra a mãe numa cadeira, vê a “paciente” misteriosa com a cara da esposa do Banderas, comenta que a deixou queimando no carro, vai lá e a transa com ela, claro.
A mulher reclama do tamanho do tico dele, até que o médico chega e dá um tiro no lombo do tigre, seu irmão cuja informação familiar não faz diferença nenhuma à trama além de dar uma “chocadinha” nas mentes mais afetadas pelo deslumbre de sentar-se em uma poltrona de cinema para ver um filme do Almodóvar.
Depois que Antonio Bandera mata o irmão bastardo vestido de tigre, ele deixa a paciente misteriosa que acabara de “salvar” (se chamava Vera) fora do cárcere… ela promete que se comportará bem e que levará uma boa vida ao lado do médico que, uma vez que a mulher tem o rosto de sua antiga esposa torrada, se apaixona pela paciente.
Mais um corte temporal óbvio e com letras garrafais mostrando a exata quantidade de tempo decorrido e vamos para uma festa muito chique em que a filha loucona do Antonio (tô íntimo do Banderas) tá se socializando com a gurizada. Rola uns olhares com um magrãozinho, mas não sem o esquema ser percebido pelo pai.
Antes disso, somos apresentados a esse magrãozinho, que é a cara de alguma das cirurgias plásticas do Michael Jackson.
Ele é filho de uma dona de um brechó que tem uma funcionária lésbica… e o magrãozinho fica dando em cima da funcionária, que diz não gostar de homem.
Esse magrãozinho se chama Vicente e, nesta cena, está tentando dar um vestido branco florido para a lésbica, pois gostaria muito de vê-la usando a peça.
Nota-se que o magrãozinho curte muito a lésbica, que até que é bonita mesmo… diferente da maioria das lésbicas que já conheci.
PAUSA
Não estou dizendo que todas as lésbicas são feias. Apenas estou dizendo que, de acordo com o que EU acho bonito em uma mulher, até agora conheci poucas mulheres assumidamente lésbicas as quais considero bonitas, ok?
DESPAUSA
A guria some da festa, o pai vai no pátio procurá-la e, para nos lembrarmos que estamos vendo um filme do Almodóvar, há um monte de jovens transando em pares, trios e quartetos no meio do mato… passa um motoqueiro a mil por hora pelo médico (obviamente, o magrãozinho cara de Michael Jackson quando teve barba) e ele começa a achar umas peças de roupa da guria pela estrada, até que a encontra, desacordada ao pé duma árvore. Ela acorda de supetão e tem uma crise nos braços do pai que, logo depois sequestra o magrão e o acorrenta num porão.
A guria vai prum hospício e, um tempo depois se mata. Claro né, é um filme do Almodóvar.
O pai fica ainda mais de cara.
Aí, de vagarinho vai acontecendo o tal do plot-twist mais óbvio que já vi na minha vida.
TODO o filme, a TODO momento, em QUASE todos os diálogos, tomadas e intenções dos personagens dão pistas do que vai acontecer:
Antonio Banderas, o médico loucão, transforma o guri que teria estuprado sua filha (tem uma ceninha antes que mostra que o guri não chegou a estuprá-la) em uma mulher, fazendo uma vaginoplastia no magrão e, aos poucos, convertendo-o exatamente na paciente misteriosa do começo do filme, trocando a pele dele e tudo mais.
E assim passam os anos… com o médico transformando, aos poucos, Vicente em Vera.
Bem, voltamos para o presente informados pelas mesmas letras garrafais de tipografia estilo vinheta do SBT e, com a bicha solta e o médico apaixonado, a paciente transex mata Banderas e a véia (a mãe que não faz diferença) e vai atrás da lésbica que esnobava ele na loja da mãe usando o vestido florido que tentou presenteá-la anos antes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não consigo dizer que é um filme ruim, mas está longe de merecer um comentário positivo.
As tomadas, fotografia, diálogo e até mesmo a trilha sonora me recordaram a maneira de fazer uma novela das 8 da globo, só que em espanhol… o que torna tudo um híbrido difícil de engolir.
Não fiquei surpreso com NADA no filme, NADA. Nem eu nem a Dafne que, mesmo que seja muito deselegante conversar na sala de cinema, fazíamos previsões sobre as coisas que iam acontecer no filme e tudo se concretizava.
O filme categoricamente não é sobre uma pessoa habitando uma pele a qual não pertence.
NÃO É.
O que parece, como disse a Dafne, é que o velho tinha um bom título (sim, é interessante) e quis usá-lo, mas se perdeu.
Plot-twist surpreendente?
NÃO.
Filme “menos almodóvar”?
NÃO SEI DA ONDE.
QUANTO VALE O FILME?
Um download, nada mais.